quarta-feira, 11 de junho de 2014

Tensão pré-biópsia...



O dia da linfadenectomia estava chegando e, junto com ela, viria a realização da biópsia para confirmação do tumor maligno chamado linfoma. O engraçado naquela época era que, mesmo tendo um prognóstico ruim pela frente, outra coisa estava me tirando o sossego. Por incrível que pareça, eu estava com mais medo de fazer o procedimento cirúrgico, que era muito simples, do que de ter que encarar um câncer.

A tensão era grande. Na hora de dormir, durante todos os dias, eu ficava pensando em qual seria o tamanho da agulha da anestesia, qual seria o tamanho dos cortes, se os pontos iriam doer muito e todas outras coisas que, na realidade, não deveriam me incomodar.

O cirurgião havia identificado um grande linfonodo perto da veia cava. Essa veia é de extrema importância por possuir um grosso calibre e trazer todo o sangue dos membros inferiores e órgãos do abdome para o peito, ou seja, qualquer corte nela seria um problema de risco quase que fatal. Contudo, mesmo assim, eu só sabia pensar na agulha, nos pontos, na dor etc.

O meu nervosismo era tanto que algumas amigas do trabalho tiraram um intervalo em um dos colégios em que eu trabalho e foram ter uma conversa tranquilizadora comigo, na qual conversamos sobre confiança, perseverança e Fé. Esse evento com as meninas do trabalho me ajudou muito já que eu não falava sobre o assunto com meus pais para não os assustar, muito menos com meus amigos. Afinal, eu nunca tive o costume de falar dos meus problemas com os amigos e esse BLOG é a minha primeira iniciativa nesse intuito.

O dia 17 de julho estava chegando e agora faltava correr atrás da UNIMED para conseguir as autorizações para a realização da linfadenectomia. Possuo plano de saúde e isso ajudou muito, mas, como sempre no Brasil, nem tudo correu tão bem como deveria e no dia do procedimento fui surpreendido com a notícia de que os materiais necessários para o médico cirurgião e sua equipe trabalharem não haviam chegado ao hospital apesar de terem sido autorizados pela UNIMED na semana anterior.

Por causa da falta de comunicação entre o plano de saúde a empresa terceirizada que disponibiliza os materiais, eu, mesmo com toda tensão de quem está prestes a descobrir se tem um câncer e pior, alguém que estava TOTALMENTE APAVORADO com o tamanho das agulhas, os pontos e com todo o resto, tive eu que argumentar seriamente, quase aos berros, com a UNIMED e a recepcionista do hospital Amparo Feminino, no Rio Comprido, até que o problema, que não era meu, fosse resolvido.

Outro fato engraçado é que, apesar do nome (Amparo Feminino), o hospital atente homens também, mas isso era o menos preocupante.

Resolvido o problema com o plano de saúde, fui encaminhado à enfermaria para esperar, ansiosamente, a visita do médico cirurgião e da anestesista antes do procedimento. De roupão, nervoso, suando e com o bumbum de fora, aguardava os médicos naquele quartinho de duas camas que chamam de enfermaria.

O médico e a anestesista chegaram e eu, naquela hora, só pensei em uma coisa:

- E vamos que vamos, pois a agulha é grossa e os pontos doem... 

É dessa forma que eu vejo uma agulha... =-O

 Esse sou eu no dia do procedimento em julho de 2013. Estava 20 kg mais magro =(

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Túnel do carlorzinho íntimo




Alguns dias após, fiz outra tomografia, desta vez do abdome e do tórax, no CDPI do Shopping Nova América. Meu pai foi comigo, pois já não queria ir mais sozinho a lugar algum. Dirigia como um louco pela rodovia até meu pai chamar minha atenção por causa do limite de velocidade. Já estava a 130 KM/h. Ao chegar na clínica, não pensei na agulha para a introdução do contraste. Já tinham me furado tantas vezes durante aqueles terríveis meses que mais uma furadinha não traria nada além do que um desconforto. Contei minha história para a Radiologista e fui encaminhado para o "túnel do calorzinho íntimo". É, isso mesmo, o aparelho que faz a tomografia era, como de costume, aquele monstro branco, barulhento (apesar de novo), com um buraco no meio onde me enfiariam, já o contraste que me injetaram dava um certo calor numa parte bem íntima do meu corpo. Acho que o pior de tudo é ficar ouvindo a gravação pedir "respire fundo" e "solte" por 15 ou 20 vezes enquanto olhava para um papel com fotos de árvores colado no teto da sala durante todo o procedimento. Fazer tomografia é, sem dúvida, uma experiência divertida.

Chegando o dia da consulta com cirurgião, estava eu novamente de posse dos exames de sangue e da nova tomografia. O consultório no Largo do  Machado, Zona Sul do Rio, era novidade para mim. Por coincidência, o médico cirurgião também se chamava Paulo, mas não possuía o jeito austero do Hematologista, muito menos era casado com o recepcionista.

Este novo Dr. Paulo era uma pessoa calma, otimista, amena e agradável. Descendente de educadores importantes  da cidade do Rio de Janeiro, o médico sabia conversar sobre as teorias da Língua Portuguesa e os autores da Literatura Portuguesa e africana lusófona. Eu me senti em casa. Nada mais de bichinhos, sapinhos, fadinhas e mães com seus filhos pestinhas. O consultório era "clean", as poltronas brancas e a recepcionista mostrava um ar competente.

Quando o médico começou a falar do exame de imagem, ele passou uma informação que eu não esperava. Para meu espanto, havia linfonodos não só no retroperitônio, mas também no tórax, estavam espalhados pelo meu corpo. Contudo, ao analisar a situação, o cirurgião foi animador ao falar que não seria necessária uma cirurgia e sim uma linfadenectomia (um procedimento feito por pequenas incisões e micro câmeras) para retirada de uma amostra dos linfonodos a fim de que fosse feita uma biópsia daquele material. Tudo aconteceria dia 17 de julho de 2013 e seria um procedimento muito fácil segundo o médico cirurgião.

Saí de seu consultório feliz com a promessa de um procedimento fácil. Restava agora apenas contar aos meus pais o que estava acontecendo e deixá-los cientes de que havia um prognóstico ruim pela frente. Eu deveria adiantar minhas tarefas nos dois colégios onde eu lecionava, pôr minhas chefes a par da situação e adiantar a correção de provas, pois faria a tal linfadenectomia durante minhas férias de meio de ano. Feito tudo isso, comecei a me preparar emocionalmente para ter a certeza de que eu estava com um tipo de doença da qual eu nunca ouvira falar.

Eu me preparei para encarar um câncer chamado Linfoma com todas as minhas forças...





A recepção irreverente no médico, a suspeita de câncer e o primeiro choro



O novo cirurgião aceitou me atender em um mês. Neste tempo, meu médico achou que eu deveria procurar também um Hematologista, pois havia a suspeita de ser algo sério. Marquei consulta com Dr. Paulo, uma figura muito curiosa que atende pelos lados da Tijuca, porém um Hematologista muito competente.

Ao chegar no consultório, numa quinta-feira à tarde, eu me vi rodeado de crianças com suas respectivas mães. Brinquedos, bichinhos de pelúcia e joguinhos estavam organizadamente dispostos em toda recepção. Mas o que mais me chamou a atenção foi o recepcionista. Marcelo era uma figura curiosa, bem-humorado, e EXTREMAMENTE falante. Falava pelos cotovelos e parecia conhecer TODAS as mães que estavam naquele lugar. Percebi que estava num consultório pediatra. O recepcionista bem-humorado, surpreendendo-me, falava abertamente, e  para todos ouvirem, que estava casado há 20 anos com Dr. Paulo e, também, que haviam renovados seus votos na Europa recentemente. Naquela recepção tinha um ar de descontração e irreverência entre ele e as mães ali presentes. Pareciam vizinhos conversando e a  conversa seguia aquele ritmo de intimidade que, hoje em dia, só existe nos subúrbios, onde os vizinhos vão para seus portões falar da vida e da vida dos outros. O clima da recepção conseguira tirar um pouco da ansiedade que havia tomado conta de mim durante toda a manhã daquela quinta-feira. Eram já 14h e eu entraria assim que a sala do doutor desocupasse.

De frente para o Hematologista, percebi que a atmosfera em sua sala em nada se parecia com o da recepção. Mesmo com mais bichinhos, sapinhos, ursinhos, fadinhas penduradas pela parede e teto da sala, a postura séria do Hematologista me fazia ficar tenso novamente. De posse de mais exames de sangue (já não tinha mais lugar para furarem meu braço) que, desta vez, continham um tal de VHS (velocidade de hemossedimentação), contei minha história de sintomas e mal estares:

Febre diária;
Perda do apetite;
Enjoo;
Perda vertiginosa de peso;
Sudorese noturna (é, a cama ficava molhada com o suor à noite);
Cansaço extremo.

Depois de me ouvir por 30 minutos, o médico austero Hematologista foi taxativo:

- Linfoma não-Hodgkin!!! Sabe o que é? É um tipo de câncer.

A palavra câncer ecoou na minha mente o restante da consulta. Não conseguia parar de pensar nela. Como uma palavra tão pequena podia fazer um estrago psicológico tão grande? Câncer parecia um mantra que ia e voltava dentro de mim. Saí da consulta me sentindo de um jeito o qual não sei explicar até hoje. Não sei se pela notícia dada ou pela febre que começava a voltar mesmo depois das  minhas duas dipironas no almoço. Naquele dia aconteceu que passei o pior de todos os dias anteriores... 

Foi a primeira vez em que chorei com medo do futuro...


A perda de peso, o aumento da frequência da febre e a ineficácia do tratamento feito



Quando iniciei o tratamento com o esquema RIPE, já sofria com a perda de apetite e a administração daquela posologia piorou as coisas para mim, pois parei, quase definitivamente, de comer. O RIPE é horrível. Enjoo todo dia, a urina fica vermelha, o comprimido é ENORME... Um horror. Mas, depois de algum tempo, o enjoo só piorou, meu peso despencou para 72 quilos (tinha 90kg antes) a febre agora era alta e vinha me visitar toda tarde. Eu acordava bem, mas sem fome, não tomava café, trabalhava até às 11h e a febre aparecia. Febre alta de 38 a 40º. No trabalho mesmo eu engolia minha primeira refeição: dois comprimidos de dipirona. Chegava em casa e  almoçava o pouco que conseguia engolir devido ao extremo enjoo e corria para debaixo do edredom me proteger do  frio que a febre me fazia sentir. Ficava como num casulo até o outro dia. Foi um período muito ruim para mim e para quem estava próximo.

Tranquei a faculdade, pois só conseguia trabalhar meio período e correr para casa por causa da febre. Sobrevivia a base dipirona, eram quase 8 comprimidos de 500mg por dia. Para não ficar desnutrido, comecei a tomar Sustagem/ Ensure, que são shakes que substituem uma refeição. Odiava aquela situação com todas as minhas forças. Eu sozinho no meu quarto pensava o quão bom seria sentir fome novamente e acreditava ficar daquele jeito para sempre. 

Neste meio tempo, percebemos que algo estava errado. O esquema RIPE, que já havia tido sua dose reduzida com a progressão do tratamento, não estava adiantando. Os dias de febre vespertina já deveriam fazer parte do passado, mas tudo só piorava. Meu médico e eu resolvemos procurar outro cirurgião, pois algo muito sério deveria estar acontecendo, eu estava definhando a cada dia. Resolvemos agir...

                    Esse é ENORME comprimido do esquema RIPE