sexta-feira, 6 de junho de 2014

Túnel do carlorzinho íntimo




Alguns dias após, fiz outra tomografia, desta vez do abdome e do tórax, no CDPI do Shopping Nova América. Meu pai foi comigo, pois já não queria ir mais sozinho a lugar algum. Dirigia como um louco pela rodovia até meu pai chamar minha atenção por causa do limite de velocidade. Já estava a 130 KM/h. Ao chegar na clínica, não pensei na agulha para a introdução do contraste. Já tinham me furado tantas vezes durante aqueles terríveis meses que mais uma furadinha não traria nada além do que um desconforto. Contei minha história para a Radiologista e fui encaminhado para o "túnel do calorzinho íntimo". É, isso mesmo, o aparelho que faz a tomografia era, como de costume, aquele monstro branco, barulhento (apesar de novo), com um buraco no meio onde me enfiariam, já o contraste que me injetaram dava um certo calor numa parte bem íntima do meu corpo. Acho que o pior de tudo é ficar ouvindo a gravação pedir "respire fundo" e "solte" por 15 ou 20 vezes enquanto olhava para um papel com fotos de árvores colado no teto da sala durante todo o procedimento. Fazer tomografia é, sem dúvida, uma experiência divertida.

Chegando o dia da consulta com cirurgião, estava eu novamente de posse dos exames de sangue e da nova tomografia. O consultório no Largo do  Machado, Zona Sul do Rio, era novidade para mim. Por coincidência, o médico cirurgião também se chamava Paulo, mas não possuía o jeito austero do Hematologista, muito menos era casado com o recepcionista.

Este novo Dr. Paulo era uma pessoa calma, otimista, amena e agradável. Descendente de educadores importantes  da cidade do Rio de Janeiro, o médico sabia conversar sobre as teorias da Língua Portuguesa e os autores da Literatura Portuguesa e africana lusófona. Eu me senti em casa. Nada mais de bichinhos, sapinhos, fadinhas e mães com seus filhos pestinhas. O consultório era "clean", as poltronas brancas e a recepcionista mostrava um ar competente.

Quando o médico começou a falar do exame de imagem, ele passou uma informação que eu não esperava. Para meu espanto, havia linfonodos não só no retroperitônio, mas também no tórax, estavam espalhados pelo meu corpo. Contudo, ao analisar a situação, o cirurgião foi animador ao falar que não seria necessária uma cirurgia e sim uma linfadenectomia (um procedimento feito por pequenas incisões e micro câmeras) para retirada de uma amostra dos linfonodos a fim de que fosse feita uma biópsia daquele material. Tudo aconteceria dia 17 de julho de 2013 e seria um procedimento muito fácil segundo o médico cirurgião.

Saí de seu consultório feliz com a promessa de um procedimento fácil. Restava agora apenas contar aos meus pais o que estava acontecendo e deixá-los cientes de que havia um prognóstico ruim pela frente. Eu deveria adiantar minhas tarefas nos dois colégios onde eu lecionava, pôr minhas chefes a par da situação e adiantar a correção de provas, pois faria a tal linfadenectomia durante minhas férias de meio de ano. Feito tudo isso, comecei a me preparar emocionalmente para ter a certeza de que eu estava com um tipo de doença da qual eu nunca ouvira falar.

Eu me preparei para encarar um câncer chamado Linfoma com todas as minhas forças...





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