sexta-feira, 6 de junho de 2014
A recepção irreverente no médico, a suspeita de câncer e o primeiro choro
O novo cirurgião aceitou me atender em um mês. Neste tempo, meu médico achou que eu deveria procurar também um Hematologista, pois havia a suspeita de ser algo sério. Marquei consulta com Dr. Paulo, uma figura muito curiosa que atende pelos lados da Tijuca, porém um Hematologista muito competente.
Ao chegar no consultório, numa quinta-feira à tarde, eu me vi rodeado de crianças com suas respectivas mães. Brinquedos, bichinhos de pelúcia e joguinhos estavam organizadamente dispostos em toda recepção. Mas o que mais me chamou a atenção foi o recepcionista. Marcelo era uma figura curiosa, bem-humorado, e EXTREMAMENTE falante. Falava pelos cotovelos e parecia conhecer TODAS as mães que estavam naquele lugar. Percebi que estava num consultório pediatra. O recepcionista bem-humorado, surpreendendo-me, falava abertamente, e para todos ouvirem, que estava casado há 20 anos com Dr. Paulo e, também, que haviam renovados seus votos na Europa recentemente. Naquela recepção tinha um ar de descontração e irreverência entre ele e as mães ali presentes. Pareciam vizinhos conversando e a conversa seguia aquele ritmo de intimidade que, hoje em dia, só existe nos subúrbios, onde os vizinhos vão para seus portões falar da vida e da vida dos outros. O clima da recepção conseguira tirar um pouco da ansiedade que havia tomado conta de mim durante toda a manhã daquela quinta-feira. Eram já 14h e eu entraria assim que a sala do doutor desocupasse.
De frente para o Hematologista, percebi que a atmosfera em sua sala em nada se parecia com o da recepção. Mesmo com mais bichinhos, sapinhos, ursinhos, fadinhas penduradas pela parede e teto da sala, a postura séria do Hematologista me fazia ficar tenso novamente. De posse de mais exames de sangue (já não tinha mais lugar para furarem meu braço) que, desta vez, continham um tal de VHS (velocidade de hemossedimentação), contei minha história de sintomas e mal estares:
Febre diária;
Perda do apetite;
Enjoo;
Perda vertiginosa de peso;
Sudorese noturna (é, a cama ficava molhada com o suor à noite);
Cansaço extremo.
Depois de me ouvir por 30 minutos, o médico austero Hematologista foi taxativo:
- Linfoma não-Hodgkin!!! Sabe o que é? É um tipo de câncer.
A palavra câncer ecoou na minha mente o restante da consulta. Não conseguia parar de pensar nela. Como uma palavra tão pequena podia fazer um estrago psicológico tão grande? Câncer parecia um mantra que ia e voltava dentro de mim. Saí da consulta me sentindo de um jeito o qual não sei explicar até hoje. Não sei se pela notícia dada ou pela febre que começava a voltar mesmo depois das minhas duas dipironas no almoço. Naquele dia aconteceu que passei o pior de todos os dias anteriores...
Foi a primeira vez em que chorei com medo do futuro...
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